Os ermos

Thiago Costa Para Ricardo Guilherme Dicke

Andou cem mil léguas com a enxada em cima do lombo. Sol alto. Ao longe via a umidade quente que subia do chão. Os pés descalços, cascudos e inchados. Feridos de sangue. Tinha ódio. Em seu rastro vinham montes de cólera e dor. O suor descia pelo rosto marcado pela catapora, embaçando-lhe a visão das coisas e das estradas. A enxada por sobre o lombo desnudo molhado pela transpiração. Sol ardente, o calor emanando dos espaços ao redor.


Sentia vontades de morte. Mortes e aniquilação. Um desejo de extermínio maior que o céu e a terra e as profundezas. Fugia do furor das secas da caatinga, mata branca rasteira cheia de ossos, cheia de fome. A aridez que lanceava o sertão e fazia as gentes simples do agreste sofrer. Tanta falta de tudo. Os parentes iam em retirância vagueando pelo estirão até a beira do mar. Grande parte morria. Igual aos bichos. Nas veredas, no seridó, no cariri. Ficava sozinho. Só Maria ao seu lado. Certa vez ele também quis ir-se embora. Juntar mais Maria em outro interior, em campo sem dono onde pudesse tocar cabrito e boi. Criar os meninos e a menina. Filhos seus e de Maria. Ilusão. Poeira. Tempo de antigamente. Esquecido. Perdido. O esquecimento. Também fugia das lembranças. O sofrimento.


Lembrou de Maria. As carícias dos castigos divinos de Maria. Cabelos compridos negros como a noite. Como os olhos profanos da coruja. Da cor da pele da onça pantera negra. Da cor negra do corpo que queima debaixo dos sóis imensos do imenso Mato Grosso. Um sorriso doce, um jeito doce, que nem o gosto doce da rapadura. Sua risada era como abundâncias de águas frescas, o colo esparramando gozos, feito correnteza de rios maiores que a fundura dos oceanos. O grande Araguaia infinito. O Teles-Pires, o Guaporé. Uma beleza sem fim. Um mistério insondável.


As distâncias cresciam. O céu se expandia. Os horizontes se alargavam. Chamas incandescentes invisíveis. O fogo castigava, devorava. Andou duzentas mil léguas com a enxada em cima do lombo queimado de sol. Ao longe via a umidade quente que subia do chão de terra. O suor corria pelas curvas do corpo fatigado, puído pela vida. Segurava o cabo da enxada com força, com as mãos grossas coalhada de calos. Tinha sede. Engolia a saliva. Boca seca. As chagas nos pés esfolados fluíam borrões de vermelho escuro de sangue.


Deixava manchas carmesins no descorado dos caminhos. Quando pequeno atravessava infindáveis léguas para buscar água nos terrenos de seu ninguém que diziam tinha dono. A barriga estufada de pedra e tijolo e areia e água barrenta. Baleava. Então a mãe fazia rezas e benzas e choros e clamava os santos católicos e os deuses-espíritos ancestrais para que acudissem. E ninguém vinha. E o sofrimento aumentava. O sofrimento. Os mortos de casa se amontoavam no quintal, com os bichos e os insetos. Com a seca. Fedia. Só o esquecimento.


Pensou em Maria. Serpente peçonhenta que o abandonara para se ir com o puteiro do circo porque assim conhecia homens ricos e estrelas que brilhavam durante o dia. Dias claros, de estrelas majestosas, coloridas. Como os girassóis antigos que imaginavam no tempo da infância. Estremeceu, vacilou. Ódio. Das coisas e de Deus e das coisas de Deus e dos assuntos humanos e de todos os homens, dos que habitaram e dos que ainda iam habitar esta terra de fatalidades e imundícies. Ódio dos homens e das cores. Mundo vaporoso feito de areias e ventos que subiam e se desmanchavam no vácuo das alturas dos sítios brancos.


O vazio. Fechou os olhos. Suava. O sofrimento. O esquecimento.


Texto extraído do livro Contos de Horror (2016), editora Clock-Book.


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