O Fantasma de Canterville

Atualizado: Ago 28

Oscar Wilde

Tradução: J. F. Stacul


CAPÍTULO I


Quando o Sr. Hiram B. Otis, o ministro americano, comprou Canterville Chase, todos disseram que ele estava fazendo uma coisa muito tola, pois não havia dúvida de que o lugar era assombrado. Na verdade, o próprio Lorde Canterville, que era um homem da mais meticulosa honra, sentiu que era seu dever mencionar o fato ao Sr. Otis quando eles vieram para discutir os termos.


— Nós mesmos não desejamos morar no lugar — disse Lorde Canterville —, já que minha tia-avó, a duquesa viúva de Bolton, teve um ataque de medo, do qual ela nunca se recuperou, causado por duas mãos de esqueleto que tocaram seus ombros enquanto ela se vestia para o jantar. Sinto-me na obrigação de lhe dizer, Sr. Otis, que o fantasma foi visto por vários membros vivos de minha família, bem como pelo reitor da paróquia, o Reverendo Augustus Dampier, que é membro do King’s College, em Cambridge. Depois do infeliz acidente com a Duquesa, nenhum de nossos servos mais jovens ficou conosco, e Lady Canterville, muitas vezes, dormia pouco à noite, por causa dos ruídos misteriosos que vinham do corredor e da biblioteca.


— Milorde — respondeu o Ministro —, vou colocar a mobília e o fantasma na fatura. Venho de um país moderno, onde temos tudo o que o dinheiro pode comprar. Com todos os nossos jovens ruborizando o Velho Mundo e carregando suas melhores atrizes e prima-donas, eu acredito que se existisse algo como um fantasma na Europa, nós logo o teríamos em nosso país, exibindo-o em um de nossos museus públicos ou em algum show itinerante.


— Temo que o fantasma exista — disse Lorde Canterville, sorrindo —, embora possa ter resistido às propostas de seus empresários empreendedores. Ele é bem conhecido já há três séculos, desde 1584, na verdade, e sempre aparece antes da morte de qualquer membro da nossa família.


— Bem, assim como o médico da família, Lorde Canterville. Mas não existe tal coisa, senhor, como um fantasma, e eu acho que as leis da Natureza não serão suspensas para a aristocracia britânica.


— Vocês americanos certamente são muito naturais — respondeu Lord Canterville, que não entendeu muito bem a última observação do Sr. Otis. — Se você não se importa com um fantasma na casa, está tudo bem. Você só deve se lembrar de que eu o avisei.


Poucas semanas depois, a compra foi concluída e, no final da temporada, o ministro e sua família foram para Canterville Chase. A Sra. Otis, que, como Srta. Lucretia R. Tappan, fora uma célebre beldade de Nova York, era agora uma mulher muito bonita, de meia-idade, com lindos olhos e um perfil esplêndido. Muitas senhoras americanas, ao deixarem sua terra natal, adotam uma aparência de doença crônica, sob a impressão de que é uma forma de refinamento europeu, mas a Sra. Otis nunca havia caído nesse erro. Ela tinha uma constituição magnífica e uma quantidade realmente maravilhosa de espírito animal. De fato, em muitos aspectos, ela era bastante inglesa e um excelente exemplo do fato de que temos realmente tudo em comum com a América hoje em dia, exceto, é claro, o idioma. Seu filho mais velho, batizado de Washington pelos pais em um momento de patriotismo que ele nunca deixou de lamentar, era um jovem louro e bastante bonito, que se qualificou para a diplomacia americana, liderando os alemães no Cassino Newport por três temporadas sucessivas — e que até mesmo em Londres era conhecido como um excelente dançarino. Gardênias e a nobreza eram suas únicas fraquezas. Fora isso, ele era extremamente sensato. A Srta. Virginia E. Otis era uma garotinha de quinze anos, ágil e adorável como uma corça, com um belo ar de liberdade refletido em seus grandes olhos azuis. Ela era uma amazona maravilhosa. Certa vez, competiu com o velho Lorde Bilton em seu pônei, correndo duas vezes ao redor do parque e vencendo por uma distância e meia, bem em frente à estátua de Aquiles, para grande deleite do jovem Duque de Cheshire. Este a pediu em casamento ali mesmo e foi enviado de volta a Eton por seus tutores, naquela mesma noite, em lágrimas. Depois de Virgínia, vieram os gêmeos, que geralmente eram chamados de “Estrelas e Listras”, porque eram frequentemente açoitados. Eram meninos encantadores e, com exceção do digno ministro, os únicos verdadeiros republicanos da família.


Como Canterville Chase fica a 11 quilômetros de Ascot, a estação ferroviária mais próxima, o Sr. Otis telegrafou pedindo uma carruagem para encontrá-los e eles iniciaram a viagem animados. Era uma linda noite de julho e o ar estava delicado com o cheiro dos pinheiros. De vez em quando, eles ouviam um pombo-da-floresta meditando sobre sua própria voz doce, ou viam, no fundo da samambaia farfalhante, o peito polido de um faisão. Pequenos esquilos os espiavam das faias enquanto eles passavam e os coelhos fugiam em meio ao mato e sobre as colinas cobertas de musgo, com suas caudas brancas no ar. Quando eles entraram na avenida de Canterville Chase, no entanto, o céu ficou repentinamente encoberto por nuvens, uma curiosa quietude parecia manter a atmosfera, um grande voo de gralhas passou silenciosamente sobre suas cabeças e, antes que chegassem à casa, enormes pingos de chuva começaram a cair.


De pé na escada, para recebê-los, estava uma velha, vestida com esmero em seda preta, com um boné e avental brancos. Esta era a Sra. Umney, a governanta que a Sra. Otis, a pedido sincero de Lady Canterville, consentira em manter em sua posição anterior. Ela fez uma reverência a cada um deles enquanto desciam e disse de uma maneira estranha e antiquada:


— Bem-vindos a Canterville Chase!


Seguindo-a, eles passaram pelo belo salão Tudor rumo a biblioteca, uma longa e baixa sala, apainelada em carvalho preto, no final da qual exibia-se um imponente vitral. Ali encontraram o chá que lhes fora preparado. Depois de tirarem os casacos, sentaram-se e começaram a observar ao redor, enquanto a Sra. Umney os atendia.


De repente, a Sra. Otis avistou uma mancha vermelha e opaca no chão perto da lareira e, bastante inconsciente do que isso realmente significava, disse à Sra. Umney:


— Receio que algo tenha sido derramado ali.


— Sim, senhora — respondeu a velha governanta em voz baixa. — Sangue foi derramado naquele local.


— Que horrível! — exclamou a Sra. Otis. — Não me agradam manchas de sangue em uma sala de estar. Devem ser removidas imediatamente.


A velha sorriu e respondeu com a mesma voz baixa e misteriosa:


— É o sangue de Lady Eleanore de Canterville, que foi assassinada naquele mesmo local por seu próprio marido, Sir Simon de Canterville, em 1575. Sir Simon sobreviveu a ela nove anos e desapareceu repentinamente em circunstâncias muito misteriosas. Seu corpo nunca foi descoberto, mas seu espírito culpado ainda assombra a Chase. A mancha de sangue, muito admirada por turistas e outras pessoas, não pode ser removida.


— Isso é tudo bobagem! — exclamou Washington Otis. — O removedor de manchas Champion da Pinkerton e o detergente Paragon irão limpá-la rapidamente.


E, antes que a governanta apavorada pudesse interferir, ele caiu de joelhos e limpou o chão rapidamente com um pequeno pedaço do que parecia um cosmético preto. Em alguns momentos, nenhum vestígio da mancha de sangue podia ser visto.


— Eu sabia que Pinkerton faria isso! — ele exclamou triunfante, enquanto olhava para sua admirada família; mas, assim que ele terminou de dizer essas palavras, um terrível relâmpago iluminou a sala sombria e um estrondo de trovão fez com que todos se levantassem. A Sra. Umney desmaiou.


— Que clima monstruoso! — disse o Ministro americano, calmamente, enquanto acendia um longo charuto. — Acho que o velho país está tão superpovoado que não tem clima decente o suficiente para todos. Sempre fui de opinião que a emigração é a única solução para a Inglaterra.


— Meu caro Hiram — exclamou a Sra. Otis —, o que podemos fazer com uma mulher que desmaia?


— Desconte o desmaio de seu salário, assim como os objetos que quebrou durante a queda — respondeu o Ministro. — Ela não vai desmaiar depois disso!


Em alguns momentos, a Sra. Umney realmente voltou a si. Não havia dúvida, entretanto, de que ela estava extremamente chateada. Severamente, advertiu o Sr. Otis para que tomasse cuidado com as adversidades que se sucederiam naquela casa.


— Tenho visto coisas com meus próprios olhos, senhor! — disse ela. — Coisas que deixariam qualquer cristão de cabelo em pé. Muitas e muitas noites não fechei os olhos durante o sono por causa das coisas horríveis que acontecem por aqui.


O Sr. Otis e sua esposa, no entanto, asseguraram calorosamente àquela alma honesta que eles não tinham medo de fantasmas. Após invocar as bênçãos da Providência sobre seus novos senhores e fazer arranjos para um aumento de salário, a velha governanta retirou-se cambaleante até o seu próprio quarto.


CAPÍTULO II


A tempestade caiu ferozmente durante toda a noite, mas nada de especial ocorreu. Na manhã seguinte, porém, quando desceram para o café da manhã, encontraram a terrível mancha de sangue mais uma vez no chão.


— Não acho que seja culpa do Detergente Paragon, disse Washington. — Eu tentei de tudo!Deve ser o fantasma!


Ele então esfregou a mancha uma segunda vez, mas na segunda manhã ela apareceu novamente. Na terceira manhã também estava lá, embora a biblioteca tivesse sido fechada à noite pelo próprio Sr. Otis e a chave carregada escada acima. A família inteira agora estava bastante interessada. O Sr. Otis começou a suspeitar de que havia sido muito dogmático em sua negação da existência de fantasmas, a Sra. Otis expressou sua intenção de ingressar na Sociedade Psíquica e Washington preparou uma longa carta aos Srs. Myers e Podmore sobre o assunto da permanência de manchas sanguíneas quando relacionadas com o crime. Naquela noite, todas as dúvidas sobre a existência objetiva dos fantasmas foram removidas para sempre.


O dia estava quente e ensolarado. No frescor da noite, toda a família saiu para dirigir. Só voltaram para casa às nove horas, quando tiveram uma ceia leve. A conversa de forma alguma girou em torno de fantasmas, de modo que não havia nem mesmo aquelas condições primárias de expectativas receptivas que tantas vezes precedem a apresentação de fenômenos psíquicos. Os assuntos discutidos, como aprendi, então, com o Sr. Otis, eram apenas alguns exemplos da conversa comum de americanos cultos da alta classe. Discutiam a imensa superioridade da Srta. Fanny Devonport sobre Sarah Bernhardt como atriz; a dificuldade de obter milho verde, bolos de trigo sarraceno e canjica, mesmo nas melhores casas inglesas; a importância de Boston no desenvolvimento da alma mundial; as vantagens do sistema de verificação de bagagem nas viagens ferroviárias; e a doçura do sotaque de Nova York em comparação com o sotaque londrino. Nenhuma menção foi feita ao sobrenatural, nem qualquer alusão a Sir Simon de Canterville. Às onze horas, a família retirou-se a seus aposentos e, à meia-noite, todas as luzes estavam apagadas. Algum tempo depois, o Sr. Otis foi acordado por um ruído curioso no corredor externo a seu quarto. Soava como um tinido de metal e parecia estar se aproximando a cada momento. Ele se levantou imediatamente, riscou um fósforo e olhou as horas. Era exatamente uma hora. Ele estava bastante calmo e sentiu seu pulso, que não apresentava alterações. O estranho barulho ainda continuava e, então, foi possível ouvir distintamente o som de passos. Calçou os chinelos, tirou um pequeno frasco oblongo do armário e abriu a porta. Ele viu, então, bem à sua frente, sob a luz da lua pálida, um velho de aspecto terrível. Seus olhos eram como brasas vermelhas; longos cabelos grisalhos caíam sobre os ombros em cachos emaranhados; suas vestes, que eram de corte antigo, estavam sujas e esfarrapadas, e de seus pulsos e tornozelos pendiam grilhões pesados e correntes enferrujadas.


— Meu caro senhor, disse o Sr. Otis, — eu realmente devo insistir em que você lubrifique essas correntes e trouxe-lhe para esse propósito um pequeno frasco do Lubrificante Sol Nascente, da Tammany. Dizem que é completamente eficaz com uma única aplicação e há vários testemunhos a esse respeito no invólucro de alguns de nossos mais eminentes teólogos nativos. Vou deixá-lo aqui para você, junto às velas do quarto, e ficarei feliz em fornecer mais, se você precisar.


Com essas palavras, o ministro dos Estados Unidos pousou a garrafa sobre uma mesa de mármore e, fechando a porta, retirou-se para descansar.


Por um momento, o fantasma de Canterville ficou imóvel em indignação natural; então, jogando a garrafa violentamente no chão polido, ele fugiu pelo corredor, emitindo gemidos vazios e uma luz verde horrível. Porém, quando ele alcançou o topo da grande escadaria de carvalho, uma porta se abriu, duas pequenas figuras vestidas de branco apareceram e um grande travesseiro passou zunindo por sua cabeça! Evidentemente não havia tempo a perder, então, adotando apressadamente a Quarta Dimensão do Espaço como meio de fuga, ele desapareceu através dos lambris e a casa ficou novamente silenciosa.


Ao chegar a uma pequena câmara secreta na ala oeste da mansão, o fantasma encostou-se à parede, coberto por um raio de lua, na tentativa de recuperar o fôlego. Começou a tentar entender onde se encontrava. Nunca, em uma carreira brilhante e ininterrupta de trezentos anos, ele fora tão grosseiramente insultado. Pensou na duquesa viúva, a quem amedrontou até deixá-la nervosa, enquanto se admirava ao espelho, em suas rendas e diamantes; lembrou-se das quatro criadas, que entraram em choque quando ele apenas sorriu para elas através das cortinas de um dos quartos de hóspedes; lembrou-se do reitor da paróquia, cuja vela apagou ao chegar tarde da noite da biblioteca e que, desde então, esteve sob os cuidados de Sir William Gull, um mártir perfeito dos distúrbios nervosos; e, por fim, veio-lhe à mente a velha Madame de Tremouillac, que, tendo acordado uma manhã bem cedo e visto um esqueleto sentado em uma poltrona perto do fogo, lendo seu diário, ficou confinada à cama por seis semanas com um ataque de febre cerebral. Após a recuperação, reconciliou-se com a Igreja e rompeu sua ligação com aquele céptico notório, o Monsieur de Voltaire. Lembrou-se também da noite terrível em que o perverso Lord Canterville foi encontrado, em seu camarim, engasgando-se com um valete de copas atravessado na garganta. O homem confessara, pouco antes de morrer, que havia enganado Charles James Fox em £ 50.000, no cassino Crockford’s, utilizando aquela mesma carta, e havia jurado que o fantasma o fizera engoli-la.


Todas as suas grandes conquistas voltaram-se contra ele, desde o mordomo que se matara na despensa porque vira uma mão verde batendo na vidraça, até a bela Lady Stutfield, que sempre fora obrigada a usar uma faixa de veludo preto em volta de sua garganta para esconder a marca de cinco dedos queimada em sua pele branca – até que finalmente se afogara no lago de carpas, no final de King’s Walk. Com o egoísmo entusiástico de um verdadeiro artista, ele repassou suas performances mais célebres e sorriu amargamente para si mesmo ao se lembrar de sua última aparição como Red Reuben ou O Bebê Estrangulado, sua estreia como Guant Gibeon, o Vampiro de Bexley Moor, e o furor que ele havia excitado em uma adorável noite de junho, simplesmente por jogar boliche com seus próprios ossos no gramado. E depois de tudo isso, alguns miseráveis ​​americanos modernos viriam e lhe ofereceriam o lubrificante Sol Nascente! Jogar iam travesseiros em sua cabeça! Foi bastante insuportável. Além disso, nenhum fantasma na história tinha sido antes tratado dessa maneira. Consequentemente, ele jurou vingança e permaneceu até o amanhecer em uma atitude de reflexão profunda.


– Trecho do livro O Fantasma de Canterville. POE, 2020. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução sem a devida autorização da editora.

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