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O silêncio

Mirian Kardoso

Quando eu nasci, saí de dentro da minha mãe pesadamente e levei alguns segundos para entender que não habitava mais seu interior úmido, e ao compreender isso, percebi que deixara da escuridão quente e aconchegante para um exterior claro, frio e incoerentemente estranho. Ao reconhecer esse novo espaço que antes era apenas um mito, eu chorei. Soltei meu grito pelo mundo como forma de expressar minha revolta e meu pesar, pois não podia aceitar a responsabilidade de existir, de ter que encarar uma realidade que eu sentia,

estava no ar,

impregnava tudo,

como erva-daninha que cresce no peito e gruda na alma,

aquela realidade seria dura.


O mais difícil, além de respirar fora da minha mãe, era ver todos aqueles rostos e ouvir todo aquele barulho. Um eco profundo de vozes agudas, rindo e tocando meu corpo, numa dança estranha que me causava nojo. Por que pareciam tão falsamente felizes? Será que não entendiam o que estava acontecendo? O que havia acontecido? O que iria acontecer? Seria eu o único ali consciente o suficiente para notar a dor que significava aquela existência? Seria eu o único tolo a enxergar a hipocrisia no tom de suas vidas?


E eu chorava.

Chorava porque queria voltar.

Não, não era certo tudo isso.

Alguma coisa parecia muito errada e fora do lugar.

E eu chorava.


Meu desespero ecoava pelas frestas abertas da vida (mas eu não quero a vida!) Quem pediu para me tirar de lá? Aquilo, definitivamente, não estava certo, eu só queria chorar e chorei mais ao ouvir meu pai mandar minha mãe calar a boca pela primeira vez. E chorei de novo ao ouvi-los discutindo sobre quem gastou o que, e chorei novamente ao perceber que os dois se silenciavam, mais ele a ela, que silenciada não percebia a vida medíocre que levava.

Eu continuava chorando, enquanto me chacoalhavam daqui e de lá, como se chacoalhando eles conseguissem emudecer as vozes interiores que lhes gritavam a realidade. Entendam, essa não é uma coisa que dá para comprar com um simples chacoalhar, não dá pra comprar.

Viu? Desde cedo tive que viver com o meu silêncio sendo comprado. Eu sabia o que aconteceria depois no decorrer dos meus anos, as histórias que os fetos trocavam entre si sobre o mundo fora da barriga da mamãe. Eu não queria.

Mas aconteceu. E eu chorei.


Compravam meu silêncio com doces, toma aqui meu filhinho, um real pro sorvete! Com brinquedos, com bichinhos esquisitos. E quando eu cresci, que aprendi a lidar com o choro, que sabia que chorar não podia acontecer da mesma forma que eu fazia quando ainda era criança, me calavam com outros tipos de presentes, que certamente, não me enganavam, e quando essas coisas não davam conta usavam com natural espontaneidade um cala a boca e se coloque em seu lugar.


Agora eu não chorava mais ao ver o mundo medíocre da minha mãe, e a hipocrisia do meu pai (e até dela por aceitar pacificamente a vida daquela forma), eu ignorava por fora e ignorava por dentro.

Tudo pelo silêncio.

(E ainda sorriram quando eu saí de dentro da minha mãe.)


Lembro-me de pensar, anos atrás, que talvez todos aqueles sorrisos fossem porque minha mãe finalmente expulsou aquele parasita que modificou seu corpo e roubou seus nutrientes. E meu pai ria para não chorar, finalmente havia saído de dentro da sua mulher mais uma boca pra alimentar, mais um que sugaria seu dinheiro, o culpado por todos os defeitos do corpo dela que ele enumerou, e enumerou várias vezes, (e por várias e várias vezes), muitos anos depois. Talvez tenha sido exatamente isso.


Tudo isso que se chocava com o mundo que me calava, enquanto eu só queria voltar para dentro de minha mãe.


Eu observava aquele mundo com olhos pestanejantes de solidão e raiva, e havia dias que um desejo enorme, de um monstro enorme que eu alimentava secretamente com meu sangue, aumentava tanto dentro de mim que eu arquitetava planos para resolver tudo aquilo.

Então aconteceu.


Um dia decidi deixar a vida e buscar o silêncio não mais mandado, mas posto como meu, e de onde me tiraram a força.


Planejei os detalhes e esperei a semana que meu pai viajava com os supostos amigos do trabalho e ela ficava sozinha em casa comigo.


A porta bateu atrás dele e do seu tchau pessoal, e meu coração começou a acelerar incrivelmente rápido, ou não tão rápido como imaginava. Sabia exatamente o que deveria fazer, e sem delongas caminhei sorrateiramente até a porta do quarto dela, onde assistia a um programa. Sem que me notasse a observei por longos segundos por entre a fresta.

Busquei dentro de mim as razões para o que estava prestes a fazer, meu coração batia compassadamente, meu rosto limpo e seco acompanhava um quase sorriso quando tomei fôlego, alimentei novamente meu mostro, suplantei todos meus pensamentos e entrei.


Lembro apenas dos seus gritos, altos, sonorizados, pareciam mais com gritos de culpa do que medo. Também me recordo do seu desespero, aquele olhar (um lampejo de desprezo?).


Nenhum outro haveria no mundo que me dissesse tanto em tão pouco. Certamente que seu destino me escapava, mas isso não significava a anulação do meu plano. Do seu olhar, que pela primeira vez não era silenciador, pela primeira vez emanava um quê que me reconhecia como um ser não silenciável, deliciei-me com tantos sons e cores. Deitei meu corpo sobre o seu como a muito não fazia, senti-o tremendo debaixo do meu, cantei baixinho e disse-lhe ao ouvido que tudo ficaria bem. Que tudo, vagarosamente, entraria no eixo e foi aí, que talvez, lhe surgira forças para se desvencilhar do meu abraço, correr e pegar aquela faca, e golpear, e continuar a golpear, de novo, e de novo, e de novo, até meu sangue espalhar sobre o tapete que outrora gritara para que eu não derramasse o leite, e respingou quente e grudento e doce e tão meu pelo seu rosto, e escorreu livremente em sua boca. E de novo, e de novo, e de novo, ela, em silêncio, continuava com aqueles movimentos tão dela.


Repetidamente, uma, duas, três, quatro vezes e eu não sentia dor, pois naquele momento ela estava consciente do mundo, do que ele fazia com as pessoas, e eu havia plantado minha semente.

E Eu a tinha libertado.

E então escureceu.

Uma escuridão tão branca, tão pálida, tão quente.


Depois de alguns meses, comigo já dentro da cova que me fora destinada a partir momento que a luz do mundo brilhou sobre meu primeiro grito choroso, minha carne tremeu. Com a semente plantada eu sentia a sorte dos meus próximos meses dentro do aconchego quente, molhado e feliz da barriga de minha mãe.

O mundo finalmente estava perfeito.

De novo.


Texto extraído do livro Contos de Horror (2016), editora Clock-Book.


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