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Impressão

Marcos Vinícius Almeida


Primeiro de tudo: o menino. Mas imagine a coisa toda vista de cima. Turma de oito, sete, homens em roupa de festa, missa, ou roupa limpa – estilo velório. Camisa de linho enfiada numa calça de brim que só vê o sol duas ou três vezes por ano (casamento, velório, talvez eleição, eu já te disse). O importante é ver a coisa de cima: o menino mais afastado, isso é importante, porque o menino ainda não pertence àquele mundo. O menino ainda não tem idade pra beber, embora seja desde sempre obrigado a trabalhar como homem, a agir como homem, seja homem, ela sabe que precisa, isso também é importante. Mas o menino também não pode se afastar dali, porque um daqueles homens é o pai do menino – reparando bem, em perspectiva, os dois, veja só, em perspectiva o rosto do homem é uma cópia degradada do menino, uma cópia abandonada debaixo do sol, dormindo no sereno, uma cópia puída e severa.


Mas a essa altura dos fatos não é isso que importa: veja só como o menino olha tudo já assim se desculpando por tudo, o menino, rodeando sem falar nada, o menino é quase invisível àqueles outros homens, invisível porque ele quer ser, e também porque não. Esse é o menino, uma cópia aperfeiçoada do homem, esse é o homem, uma imagem mais ou menos degradada do menino. Isso em perspectiva – mas olhando de perto, veja só, esse terreno acidentando que é o rosto do homem, essa barba irregular e falhada, o nariz afundado na cara, os olhos vermelhos nas órbitas manchadas de um azul cinzento, pálido, isso não tem nada a ver com o menino, talvez o menino pensasse, nessa época, uma ou duas vezes por dia, embora só compreendesse essas coisas muitos anos depois, quando ele mesmo fosse uma cópia degradada de um outro menino, ou nem isso.


O fato já está consumado: mas o menino a essa altura dos fatos não compreende toda a cena. O menino só conhece uma parte da história, o pai conhece outra parte, até agora essas partes ainda não se encontraram, repelidas uma pela outra, ao mesmo tempo que se atraem, isso independe do menino, do homem, da degradação de seus rostos e de todo resto.

A parte do menino talvez seja a mais importante, pelo menos para ele mesmo, não há nenhum equívoco em seus atos, veja só, quando ele saiu de casa, para contar ao pai, esse é o ponto mais importante, o menino saiu de casa para contar uma coisa muito importante para o pai, agora todos nós sabemos como isso termina, com o menino contando uma coisa muito importante para o pai, o menino saiu dali como um vitorioso, veja só como o menino está feliz da vida, saiu dali com um cabo de vassoura na mão, quebrado, partido, sujo de sangue, ainda com medo, mas vitorioso, saiu em disparada e largou a porta arreganhada – e a porta rangeu sozinha quando se fechou sozinha.


Mas alguma coisa mudou no caminho, veja como o menino vai desacelerando, diminuindo o entusiasmo, encolhendo a corrida, sozinho naquele descampado, o menino talvez tenha tido uma intuição, uma dessas intuições que mudam as coisas, em perspectiva, enquanto ele foi constatando por si mesmo o fim daquela história, aquela história que tinha começado muito bem, veja só como o menino vai percebendo, a mudança de fisionomia, porque cada corpo carrega uma verdade, toda aquela aventura, toda aquele esforço, uma luta, o menino já tinha abandonado aquele cabo de vassoura, o menino então meio que sabia que talvez tivesse entendido a coisa toda de uma forma equivocada, uma compreensão equivocada “Mas o senhor não disse nada”, é o que vai dizer mais à frente, aos trancos, e o pai, depois de um daqueles longos silêncios de puro ódio, o menino bem conhecia, “Em casa a gente conversa”.


Quando o menino abriu a porta da casa, veja só, ele não percebeu de pronto, primeiro ele meio que sentiu um vulto passando atrás dele, de rabo de olho, um vulto, da sala pra cozinha, uma sombra escorregando às suas costas, podia ser impressão, já tinha tomados uns passes, ouvido falar da necessidade de fechar a mediunidade, e foi nessas coisas que o menino pensou, nunca ia pensar em outra coisa, nunca numa bobagem tão simples, isso é o que menino pensou. Mas então ele viu o rabo do bicho, um rabo preto e peludo, e daí estremeceu inteiro, daqueles medos de esgotar as forças, nem teve forças pra gritar, isso no primeiro momento, mas então o bicho apontou a fuça na cozinha e veio rosnando, aqueles dentes brancos e pontudos vazando no canto da boca, e o maldito do cachorro parecia o próprio diabo. Mas foi aí que o menino criou coragem e encarou o bicho, pelo do corpo erriçado. O menino pegou a vassoura e desceu o malho no desgraçado, aquilo gemia e chorava como criança, mas o menino estourou a cabeça daquele cão dos infernos. Sem dó.


“Se você matou meu cachorro você vai ver comigo, menino”, foi isso que o menino imaginou que o pai ia dizer, e o pai disse mesmo. “Mas eu não sabia”, o menino imaginou dizer, depois disse mesmo, e imaginou ele mesmo, o menino, enfiando aquele cachorro num saco preto, andando até o rio, e foi isso mesmo que o pai fez ele fazer, jogar aquele saco preto no rio. E quando eles voltavam no rumo de casa, o pai ainda disse que não tinha problema, arranjavam outro cachorro. “Tudo igual”, o pai fez questão de esclarecer. E o menino respirou aliviado – só ficou sem ar em casa, fôlego, porque o pai batia nas costas, do mesmo jeito, na mesma medida, que era pro menino aprender a ser gente. E aqueles sinais do cabo de vassoura ainda não tinham saído de todo, ainda roxos, no dia do enterro do pai – 9h36 dum domingo bonito, caiu duro: sem mais, nem menos.


Texto extraído do livro Contos de Horror (2016), editora Clock-Book.


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